Doeu, você foi embora.
Doeu, você quebrou todas as promessas que nós fizemos, você se lembra ? Eu me lembro muito bem, deitados no seu quarto no escuro, eu conseguia ver alguns detalhes do seu rosto por causa da luz do abajur. Você não disse nada, só me prometeu com os olhos. Sempre que você olhava pra mim daquele jeito eu sabia que eu podia me sentir segura, se fosse possível traduzir acho que seria algo como: "Eu vejo dentro da sua alma, e eu compartilho de todos os sentimentos que existem aí dentro."
Mas você foi embora. Hoje fazem aproximadamente 8 meses, pra ser mais exata 223 dias. Há 223 dias atrás você me disse que era melhor eu ir embora, disse que ia me deixar, que precisava de tempo, que voltava quando se entendesse, se encontrasse.
Você não voltou. Você até ligou, mas você não voltou.
Você ligou dizendo que sentia a minha falta, que seria bom se eu estivesse com você, depois disse que ia desligar, que não devia ter feito isso. Eu entendi, na verdade não. Eu não entendi, nunca entendi, não entendi porque pra se encontrar você precisava fazer eu me perder, antes nunca tivesse me achado, antes eu continuasse vagando pelo escuro procurando por uma vela, um sinal, do que ter sido cegada pela tua luz, a luz do teu sol, e agora estar condenada a vagar tateando os cantos em busca de direção. Com o tempo, dizem, a gente se acostuma com a cegueira, os outros sentidos ficam mais aguçados, ou então a gente se acostuma com a escuridão, depende do quão otimista se é, no final das contas não faz muita diferença, a gente tá é perdido.
Esses dias, caminhando, pra ser mais exata voltando do trabalho, reparei num abacateiro que tem na minha rua, bem no início, nunca tinha olhado direito pra ele, mas percebi que todas as suas folhas estavam secas, naquele tom de marrom sabe ? Enquanto eu continuei caminhando vi uma de suas folhas cair, acompanhei sua luta contra a gravidade, em uma fração de segundos e com uma ajudinha do vento, pronto, estava no chão. Varios meses depois, mais uma vez, reparei no abacateiro que continuava lá no inicio da minha rua, e o vi vistoso, com formosas folhas verdes, e pequenos brotinhos de abacate que daqui a algum tempo estariam prontos para serem colhidos. Chegando em casa, ainda pensando em você, pensei também no abacateiro, como eu queria te contar o quanto era interessante reparar nas mudanças de estação, que o ser humano não repara mais nessas coisas bonitas da vida, e quando a gente passasse por ele eu ia fazer você parar e olhá-lo com atenção, você ia concordar comigo, mas você não me ligou mais, tive que pensar sozinha.
Pensei.
Nada nessa vida acontece a toa sabe, meu amor ? Pensando no abacateiro do inicio da rua reparei que eu tinha mais em comum com ele do que eu pensava. Eu era uma árvore, você era apenas mais uma das minhas folhas, uma das fracas que não aguentou o peso da gravidade e foi ao chão. Eu não reparei em como o nosso amor foi do verde ao marrom, eu só via a tua graça, a tua beleza, a canção que tu era pra mim. Tu caiu, se foi, e não voltas mais. Mas eu continuo aqui de pé, por mais envergada que esteja ainda hei de florescer de novo, novas folhas verdes brotarão, e o vento vai te levar. E eu permanecerei.
Adeus, nunca vou te esquecer.
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como eu te amo ....
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